quarta-feira, 21 de novembro de 2012



"Tenho meus quartos escuros e, quando estou cansada, me tranco lá e não quero saber da luz do sol. É preciso estar bem pra enxergar a luz como claridade. Se estou mal, ela me encadeia.
É necessário desertar, é uma questão de sobrevivência a 

fuga da rotina de extraviar-se sem poder se emendar e ter que continuar andando.

Temos o direito a nos desmontar de vez em quando, deixar que os cacos se espalhem, mesmo que nunca mais consigamos juntar todos do mesmo jeito, mas teremos movimentado a nossa engrenagem, provado da nossa impotência, da nossa incapacidade humana, da nossa desnecessidade de ser infalíveis.
Sou assim, feita de remendos e retalhos, às vezes a costura fica a mostra; noutras, a tinta demora a secar, a cola escorre, mas, entre um recorte e outro, preparo os ouvidos para a ordem inevitável : 'levanta-te e anda ! '
É quando abro a porta, coloco as inquietações entre parênteses, e vejo a claridade do dia amanhecer-me para uma nova história."


quinta-feira, 25 de outubro de 2012




"Contente. Contente do instante
Da ressurreição, das insônias heróicas
Contente da assombrada canção
Que no meu peito agora se entrelaça.
Sabes? O fogo iluminou a casa.
E sobre a claridade do capim
Um expandir-se de asa, um trinado

Uma garganta aguda, vitoriosa.

Desde sempre em mim. Desde
Sempre estiveste. Nas arcadas do Tempo
Nas ermas biografias, neste adro solar
No meu mudo momento


Desde sempre, amor, redescoberto em mim."


(Hilda Hilst)

sábado, 20 de outubro de 2012

Every single night



"That what I am is what I am cause I does what I does
And maybe I'd relax, let my breast shot bust open
My heart's made of parts of all that surround me
And that's why the devil just can't get around me
Every single night's alright, every single night's a fight
And every single fight's alright with my brain..."

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

55 coisas aleatórias sobre mim


1. Primeira coisa que você lava no chuveiro? Pescoço e ombros.
2. Qual é o seu hobbie favorito? Ficar observando as pessoas e seus comportamentos para analisar posteriormente. Coisa de stalker maluco, but I can't help it.
3. Como você está se sentindo agora? Sentindo saudade de um tempo que ainda não vivi.
4. Qual é a coisa mais próxima de você que é vermelha? Meu abajour cafoninha de corações (ele é tão brega que reflete corações na parede), mas que me faz lembrar uma época em que tudo era mais inocente.
5. Como foi seu último sonho? Família reunida pro casamento da minha irmã (já casada), e eu usando um vestido breguíssimo. Todas aquelas discussões familiares de sempre e eu me isolando no quarto, também como sempre.
6. O que você quer agora? Férias, com urgência. Mas não só da faculdade, da cidade... férias da vida.
7. Você é emotiva? Na medida exata entre louca-passional-almodovoriana e fria-sem-coração-bergmaniana. Ando numa fase controlada (externamente, pensamentos estão a mil), mas tenho meus momentos mais emotivos.
8. Já contou até 1000? Costumo contar pra pegar no sono quando tô com insônia (a.k.a. todo dia), mas sempre durmo ou desisto no meio, nunca sei até onde cheguei.
9. Você morde ou lambe o sorvete? Os dois.
10.Você gosta do seu cabelo? Gosto muito do meu cabelo. Mas reclamo dele por esporte.
11. Você gosta de si mesma? Depende do momento, mas geralmente, sim.  Pelo menos me orgulho mais das minhas coisas do que me envergonho delas. Mas gosto de uma maneira consciente dos meus defeitos, meus erros. Não é um amor cego e bobo. É um estado de saber quem se é, o que se quer, e se sentir confortável com isso. Mas tenho meus momentos de ódio.
12. O que você está ouvindo agora? http://www.youtube.com/watch?v=q5Ig8V8tL5s (recomendo o filme também, mas o italiano, original, não a bizarrice americana)
13. Queria poder mergulhar no céu? Dispenso.
14. Você já conheceu uma celebridade? Almoçei com o Bruno Gagliasso depois de ganhar uma promoção de rádio, comemos sashimi. 
15. Existe alguma coisa brilhante onde você está? Serve o lustre?
16. Qual seu lugar preferido da casa? Se meu quarto tivesse geladeira e uma dispensa ia ser meu lugar preferido não apenas em casa, como no mundo.
17. Você já passou trote?  Não, sempre fui do tipo intelectual-sensível-nerd.
18. Já esteve em um trem? Não, mas pretendo estar em uma viagem próxima à Europa.
19. Você tem celular? Não contente em ter um, eu tenho dois.
20. Qual o sabor do gloss/batom que você usa? É de comer? Escolho pela cor mesmo. Mas minhas maquiagens são limitadíssimas, sou extremamente preguiçosa com essas coisas e valorizo demais o natural.
21. Você tem alguma arma? Segundo entes queridos e próximos, são minhas palavras.
22. Se você fosse homem, como gostaria que fosse seu cabelo? Milimetricamente despenteado. Ou raspado.
23. Com quem você vai estar hoje a noite? Audrey Hepburn e seu quadro na minha parede, e alguns possíveis bêbados passando na rua.
24. Você é alta? Definitivamente, não.
25. Já esteve apaixonada? "Você sabe o que ter um amor, meu senhor, e por ele quase morrer?" Eu sei.
26. O que vai fazer amanhã? Estudar (pretendo), arrumar meu guarda-roupa que muito me incomoda, e curtir o repouso obrigatório.
27. Está apaixonada? Leia a resposta da questão 25.
28. A última vez que você chorou? Há uns 30 minutos.
29. Qual foi a última pergunta que você fez? “Será que ainda tem sorvete?”
30. Estação favorita? Outono de Nova York, com folhas no chão. Sendo tupiniquim, inverno.
31. Você tem alguma tatuagem? Ainda não. Mas em vias de.
32. Você é sarcástica? Já fui mais, confesso. Ultimamente ando praticante do sarcasmo mental. Machuca menos as pessoas mas alivia da mesma forma. Recomendo.
33. Já pulou um muro? Sempre fui lady (entenda como sonsa), nunca fiz esse tipo de coisa. Nem andar de bicicleta eu sei...
34. Cor favorita? Preto, branco e azul (não sei escolher apenas uma entre essas). Mas no momento diria preto.
35. Alguma vez você já bateu em alguém? Eu batia nos meninos quando era pequena, mas depois de grande, nunca. Sempre fui bem controlada quanto a isso. Não acho que violência resolva as coisas.
36. O seu cabelo é crespo? É liso até demais. 
37. Qual foi o último CD que você comprou? Mil anos que não compro cd, não lembro, mas ACHO que foi o 4, dos Los Hermanos.
38. Aparência importa? Até certo ponto, mas um ponto importante. 
39. Você poderia perdoar uma traição? Considerando como eu sou hoje e o que já vivi, não.
40. Você gosta de sua vida agora? Não gosto, nunca gostei da minha vida, na verdade. Mas hoje em dia tenho maturidade o suficiente pra saber lidar com isso.
41. Você consegue ficar sem mentir? Todos mentem. Só mudam os tópicos e as razões.
42. Você odeia, ou não gosta muita gente? Gosto de pessoas isoladamente, não gosto de gente em bando. Geralmente não gosto de muita gente porque sou crítica e observadora demais, e isso é uma praga. Mas ando mais flexível. E odiar mesmo, não odeio ninguém.
43. Quantas vezes você fala ao telefone? Só com a minha irmã que mora num vilarejo distante que falo sempre, mas às vezes falo com outras no celular. Telefone de casa nunca atendo. Nem interfone. Odeio interagir sem saber quem é do outro lado.
44. O que você está vestindo? Pijama rosa. 
45. Qual é seu animal favorito? Cachorros de qualquer tipo, principalmente Pugs (rola todo um amor). Mas também sou fascinada por cavalos e felinos, de todos os tipos. E tem um bichinho que chama Slow Loris que é o ser mais gracinha que a natureza já fez.
46. Onde você tirou sua foto do perfil? Faz a brincadeira do copo e pergunta pra Audrey. Só sei que é dos bastidores de Funny Face.
47. Você é estudiosa? Há quem dia que tá na cara. E realmente, estudo, sim. Mas nada a ponto de pirar. Já pirei... hoje em dia aprendi a relaxar.
48. Você tem um emprego? Não, mas poderia receber por reclamar em tempo integral. Ou vender Herbalife, sei lá.
49. Alguma vez você já pensou em se matar? Já, mas sou do tipo que não ia morrer e só ia ficar dando trabalho em vida, sabe? Pula do prédio e fica paraplégica, minha cara isso.
50. Acha terrível pessoas…? Que não refletem, principalmente sobre coisas óbvias.
51. Você acha que o sexo oposto te acha atraente? Me acham um serzinho fofo e pra casar, geralmente. Ou uma chata rabugenta. 
52. Uma pessoa para te conquistar precisa? Inteligência, mãos, sobrancelhas e nariz que me agradem, charme, dose certa de sarcasmo e de romantismo. E tem que me fazer rir.
53. …E jamais deve..? Preconceito, burrice e mão feia.
54. Você acha que deve ter amor para ter sexo? Não mesmo. Pra mim, sim, mas entendo quem consegue sem.
55. Como gostaria de morrer? Como eu vi em um filme: na praia, com sol se pondo, calma e feliz.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Take a walk on the wild side




“Eu estava no inverno da minha vida – e os homens que encontrei pelo caminho eram meu único verão. De noite eu dormia e tinha visões de mim mesma dançando, rindo e chorando com eles. Três anos consecutivos em uma infinita turnê mundial e minhas memórias deles foram as únicas coisas que me sustentaram, e meus únicos momentos felizes reais. Eu era uma cantora, não muito popular, que tinha o sonho de se tornar uma bela poetisa – mas uma série de eventos desafortunados destruiu esse sonho e o dividiu como um milhão de estrelas no céu noturno, para que eu fizesse pedidos a elas de novo e de novo – brilhantes e destruídas. Mas eu não me importei, porque sabia que ter tudo que você quer e depois perder isso tudo é saber o que a liberdade verdadeiramente é.
Quando as pessoas que eu conhecia descobriram o que eu fazia, como eu vivia – elas me perguntaram porquê. Mas não faz sentindo falar com pessoas que tem um lar, elas não tem ideia de como é procurar segurança em outras pessoas, procurar um lar onde você possa descansar a cabeça.
Sempre fui uma menina incomum, minha mãe me disse que eu tinha alma de camaleão. Nada de uma bússula moral apontando para o norte, nada de personalidade fixa. Apenas uma determinação interna que era tão grande e oscilante quanto o oceano. E se eu dissesse que não planejava as coisas desse jeito, estaria mentindo, porque eu nasci para ser a outra mulher. Eu não pertencia a ninguém – pertencia a todo mundo, não tinha nada – que queria tudo com o fogo de cada experiência e uma obsessão por liberdade que me assustava tanto a ponto de nem conseguir falar sobre isso – e me empurrou para um ponto nômade de loucura que tanto me deslumbrava quanto me deixava tonta.
Toda noite eu costumava rezar para achar pessoas como eu – e finalmente achei – na estrada. Não tínhamos nada a perder, nada a ganhar, nada que desejássemos mais – exceto transformar nossas vidas em uma obra de arte.
Viva rápido. Morra jovem. Seja selvagem. E se divirta.
Eu acredito no que a América costumava ser. Eu acredito na pessoa que quero me tornar, acredito na liberdade da estrada. E meu lema é o mesmo de sempre – acredito na gentileza dos estranhos. E quando estou em guerra comigo mesma, eu ando por aí. Só ando por aí.
Quem é você? Você está em contato com todas as suas fantasias mais escuras? Você criou uma vida para você mesmo na qual é feliz para experienciá-las? Eu criei. Eu sou louca pra cacete. Mas eu sou livre.”

Ou como um clipe é capaz de te fazer chorar feito criança.

"Descobri que minha obsessão por cada coisa em seu lugar, cada assunto em seu tempo, cada palavra em seu estilo, não era o prêmio merecido de uma mente em ordem, mas, pelo contrário, todo um sistema de simulação inventado por mim para ocultar a desordem da minha natureza. Descobri que não sou disciplinado por virtude, e sim como reação contra a minha negligência; que pareço generoso para encobrir 
minha mesquinhez, que me faço passar por prudente quando na verdade sou desconfiado e sempre penso o pior, que sou conciliador para não sucumbir às minhas cóleras reprimidas, que só sou pontual para que ninguém saiba como pouco me importa o tempo alheio. Descobri, enfim, que o amor não é um estado da alma e sim um signo do zodíaco."

Wild world




Quando eu era criança, aprendi que escalar o monte Everest é difícil. Que matemática é muito difícil. Que se tornar a primeira bailarina de uma grande companhia de ballet, quase impossível. Ser astronauta também. E que ser médica é bem, beeem difícil. Concordo com tudo isso. Mas acho que a maior dificuldade mesmo é deixar de ser criança e virar adulto. Isso sim é realmente difícil. E é por isso que não podemos deixar morrer a criança que existe dentro de nós. Pra que a doçura e sede de descobertas dos pequenos nunca desapareça, e nos dê forças para enfrentar esse wild world, tantas vezes cruel.


Feliz dia das crianças pra todos, inclusive pras crianças de 100 anos!



quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Uma estrela de brilho próprio

Marilyn era uma grande defensora do Movimento pelos Direitos Civis. Ella Fitzgerald foi um dos ídolos de Marilyn e uma grande inspiração. No entanto, a casa de shows Mocambo em West Hollywood, o ponto de dança mais popular da época, se recusou a deixar Ella se apresentar lá porque ela era negra. Indignada, Marilyn apresentou uma tentadora proposta ao dono da casa de shows.
De acordo com a grande Ella Fitzgerald:

"Eu devo a Marilyn Monroe uma dívida real. Foi por causa dela que eu me apresentei na Mocambo, uma discoteca muito popular nos anos 50. Ela ligou pessoalmente para o dono da Mocambo e lhe disse que ele deveria me agendar imediatamente e, se ele fizesse isso, ela iria ocupar uma mesa na primeira fila a cada noite. Ela disse a ele — e era verdade, devido ao status de superstar de Marilyn — que a imprensa iria enlouquecer. O proprietário disse que sim, e Marilyn estava lá, na mesa da frente, todas as noites. A imprensa foi à loucura. Depois disso, eu nunca tive que me apresentar num clube de jazz pequeno novamente. Ela era uma mulher incomum — um pouco a frente seu tempo. E ela não sabia."

Mas nós sabemos, diva!

terça-feira, 9 de outubro de 2012

It's also about let it go

Tenho uma relação extremamente intensa e pessoal com o filme Cisne Negro, tanto que o filme já foi por muito tempo tema da minha terapia. Mas não vou me aprofundar nisso porque é algo intensamente pessoal, complexo e até mesmo doloroso.
O que me motivou a fazer esse post é que tenho a mania de não usar minhas fotos em perfis de redes sociais. Como fã de fotografia que sou, sempre acho que a foto de alguma atriz querida ou de algum filme está melhor focada, com iluminação melhor... ou até mesmo representa melhor meu momento.
E uma foto que costumo usar muito é a da Nina já transformada em Cisne Negro. Já fui inclusive fantasiada de Cisne Negro (como no filme) a uma festa a fantasia. A fantasia fez muito sucesso, aliás, ganhei dezenas de parabéns. Mas enfim. Por causa desse tipo de coisa um amigo curioso veio me perguntar se eu gostava mais da Nina Black Swan porque sou malvadinha. É verdade que a Nina, depois da "transformação", se tornou uma pessoa diferente. Mas o que me interessa no Cisne versão negra é que pra mim, a transformação da personagens significa a TRANSCENDÊNCIA, que a arte em sua forma mais pura. E ela era, acima de tudo, uma artista. Mas só conseguiu sentir a arte correndo em suas veias, tocando a sua pele, mudando a sua mente, após a transformação.
É por isso que prefiro o cisne negro. Porque ele é capaz de transcender e ir aonde poucos foram antes. E isso pra mim é o verdadeiro significado da arte.


P.S.: O Cisne Negro do ballet de repertório original é uma bitch. Apenas.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012


Desde pequena, o inferno costumava me visitar de surpresa. Não ficava muito, apenas se mostrava ali, e entre uma brincadeira de Barbie e a leitura de um livro infantil, ele ia embora. Depois voltava, e com a mesma rapidez que chegava, logo saia.
Acontece que as visitas do inferno deixam marcas. Você começa a se acostumar com a presença dele. Começa a se perguntar quando ele vai voltar, e fica ansiosa com isso. Até que ele volta... de vez.
No começo só vem antes de você dormir ou quando algo ruim te acontece, mas quando você menos espera ele está lá, ao seu lado na faculdade durante uma atividade importante ou na sala de espera do médico enquanto aguarda um resultado de um exame. Ou até mesmo na academia, em um show, em um jantar com amigos. E então o inferno acaba se tornando seu amigo imaginário, por falta de palavra melhor. Seu companheiro inseparável.
Acontece que só você consegue vê-lo, na maioria das vezes. As pessoas ao seu redor apenas o sentem de relance, como se observassem sua respiração balançando seus cabelos mas não entendesse o que se passa.
E ninguém entende, muito menos você. Mas parece que depois de um tempo você se acostuma com a presença dele e não sabe mais como reagir. Não sabe nem se quer reagir. Não por falta de vontade, mas por falta de forças. E porque ele está tão presente na sua vida que você mal consegue se lembrar dos raros momentos que passou sem ele.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Eternal sunshine





"Acho que saudade é isso. Como quando se tira um vestido velho do baú, um vestido que não é para usar, só para olhar. Só para ver como ele era. Depois a gente dobra de novo e guarda mas não se cogita em jogar fora ou dar."

sábado, 8 de setembro de 2012

Embalando a insônia

Esse vídeo ilustra o que eu chamaria de encontro de gênios. Letra de Chico Buarque, melodia de Tom Jobim, interpretada pelo absoluto (não há outro adjetivo suficiente para ele) Ney Matogrosso, com o acompanhamento do fabuloso violonista Raphael Rabello.
Impossível não ser tocada por essa música, especialmente nessa versão. Aliás, a versão da Elis também é belíssima, mas a combinação dessa versão que postei, de voz e violão, faz dela a minha versão preferida, principalmente pra quem realmente traz o peito tão marcado de lembranças do passado. Mas só alguns sabem a razão.

Le petite





‎"Anos depois da guerra, depois dos casamentos, dos filhos, dos divórcios, dos livros, ele foi a Paris com a mulher. Telefonou-lhe. Sou eu. Ela reconheceu a voz. Ele disse: queria apenas ouvir sua voz. Ela disse: sou eu, bom dia. Ele estava intimidado, com medo, como antes. Sua voz começou a tremer de repente. E, com esse tremor, subitamente ela reencontrou o sotaque da China. Ele sabia que ela começara a escrever, soubera pela mãe, com que se encontrou em Saigon. E também sobre o irmãozinho, ficara triste por ela. E depois não soube mais o que dizer. E depois lhe disse. Disse que continuava como antes, que a amava ainda, que jamais poderia deixar de amá-la, que a amaria até a morte."

(O Amante, Marguerite Duras, com um dos finais de livros que mais me faz chorar. Na foto, imagem do filme baseado no livro, e tão bonito, tão triste quanto...)

domingo, 5 de agosto de 2012

A Alegria na Tristeza





"O título desse texto na verdade não é meu, e sim de um poema do uruguaio Mario Benedetti. No original, chama-se "Alegría de la tristeza" e está no livro "La vida ese paréntesis" que, até onde sei, permanece inédito no Brasil.

O poema diz que a gente pode entristecer-se por vários motivos ou por nenhum motivo aparente, a tristeza pode ser por nós mesmos ou pelas dores do mundo, pode advir de uma palavra ou de um gesto, mas que ela sempre aparece e devemos nos aprontar para recebê-la, porque existe uma alegria inesperada na tristeza, que vem do fato de ainda conseguirmos senti-la.

Pode parecer confuso mas é um alento. Olhe para o lado: estamos vivendo numa era em que pessoas matam em briga de trânsito, matam por um boné, matam para se divertir. Além disso, as pessoas estão sem dinheiro. Quem tem emprego, segura. Quem não tem, procura. Os que possuem um amor desconfiam até da própria sombra, já que há muita oferta de sexo no mercado. E a gente corre pra caramba, é escravo do relógio, não consegue mais ficar deitado numa rede, lendo um livro, ouvindo música. Há tanta coisa pra fazer que resta pouco tempo pra sentir.

Por isso, qualquer sentimento é bem-vindo, mesmo que não seja uma euforia, um gozo, um entusiasmo, mesmo que seja uma melancolia. Sentir é um verbo que se conjuga para dentro, ao contrário do fazer, que é conjugado pra fora.

Sentir alimenta, sentir ensina, sentir aquieta. Fazer é muito barulhento.

Sentir é um retiro, fazer é uma festa. O sentir não pode ser escutado, apenas auscultado. Sentir e fazer, ambos são necessários, mas só o fazer rende grana, contatos, diplomas, convites, aquisições. Até parece que sentir não serve para subir na vida.

Uma pessoa triste é evitada. Não cabe no mundo da propaganda dos cremes dentais, dos pagodes, dos carnavais. Tristeza parece praga, lepra, doença contagiosa, um estacionamento proibido. Ok, tristeza não faz realmente bem pra saúde, mas a introspecção é um recuo providencial, pois é quando silenciamos que melhor conversamos com nossos botões. E dessa conversa sai luz, lições, sinais, e a tristeza acaba saindo também, dando espaço para uma alegria nova e revitalizada. Triste é não sentir nada."



(Martha Medeiros)

sábado, 4 de agosto de 2012

Sugestões para atravessar agosto


Para atravessar agosto é preciso, antes de tudo, paciência e fé. Paciência para cruzar os dias sem se deixar esmagar por eles, mesmo que nada aconteça de mau; fé para estar seguro, o tempo todo, que chegará setembro – e também certa não-fé, para não ligar a mínima às negras lendas deste mês de cachorro louco. É preciso quem sabe ficar-se distraído, inconsciente de que é agosto, e só lembrar disso no momento de, por exemplo, assinar um cheque e precisar da data. Então dizer mentalmente ah! Escrever tanto de tanto de mil novecentos e tanto e ir em frente. Este é um ponto importante: ir, sobretudo, em frente.
Para atravessar agosto também é necessário reaprender a dormir, dormir muito, com gosto, sem comprimidos, de preferência também sem sonhos. São incontroláveis os sonhos de agosto: se bons, deixam a vontade impossível de morar neles, se maus, fica a suspeita de sinistros augúrios, premonições. Armazenar víveres, como às vésperas de um furacão anunciado, mas víveres espirituais, intelectuais, e sem muito critério de qualidade. Muitos vídeos de chanchadas da Atlântida a Bergman; muitos CDs, de Mozart a Sula Miranda; muitos livros, de Nietzche a Sidney Sheldon. Controle remoto na mão e dezenas de canais a cabo ajudam bem: qualquer problema, real ou não, dê um zap na telinha e filosoficamente considere, vagamente onipotente, que isso também passará. Zaps mentais, emocionais, psicológicos, não só eletrônicos, são fundamentais para atravessar agostos. Claro que falo em agostos burgueses, de médio ou alto poder aquisitivo. Não me critiquem por isso, angústias agostianas são mesmo coisa de gente assim, meio fresca que nem nós. Para quem toma trem de subúrbio às cinco da manhã todo dia, pouca diferença faz abril, dezembro ou, justamente, agosto. Angústia agostiana é coisa cultural, sim. E econômica. Mas pobres ou ricos, há conselhos – ou precauções-úteis a todos. O mais difícil: evitar a cara de Fernando Henrique Cardoso em foto ou vídeo, sobretudo se estiver se pavoneando com um daqueles chapéus de desfile a fantasia categoria originalidade…Esquecê-lo tão completamente quanto possível (santo ZAP): FHC agrava agosto, e isso é tão grave que vou mudar de assunto já.
Para atravessar agosto ter um amor seria importante, mas se você não conseguiu, se a vida não deu, ou ele partiu – sem o menor pudor, invente um. Pode ser Natália Lage, Antonio Banderas, Sharon Stone, Robocop, o carteiro, a caixa do banco, o seu dentista. Remoto ou acessível, que você possa pensar nesse amor nas noites de agosto, viajar por ilhas do Pacífico Sul, Grécia, Cancún ou Miami, ao gosto do freguês. Que se possa sonhar, isso é que conta, com mãos dadas, suspiros, juras, projetos, abraços no convés à lua cheia, brilhos na costa ao longe. E beijos, muitos. Bem molhados.
Não lembrar dos que se foram, não desejar o que não se tem e talvez nem se terá, não discutir, nem vingar-se, e temperar tudo isso com chás, de preferência ingleses, cristais de gengibre, gotas de codeína, se a barra pesar, vinhos, conhaques – tudo isso ajuda a atravessar agosto. Controlar o excesso de informações para que as desgraças sociais ou pessoais não dêem a impressão de serem maiores do que são. Esquecer o Zaire, a ex-Iugoslávia, passar por cima das páginas policiais. Aprender decoração, jardinagem, ikebana, a arte das bandejas de asas de borboletas – coisas assim são eficientíssimas, pouco me importa ser acusado de alienação. É isso mesmo, evasão, escapismos, explícitos.
Mas para atravessar agosto, pensei agora, é preciso principalmente não se deter de mais no tema. Mudar de assunto, digitar rápido o ponto final, sinto muito perdoe o mau jeito, assim, veja, bruto e seco:.
Caio Fernando Abreu (6/8/1995 – para o jornal O Estado de São Paulo)

quinta-feira, 19 de julho de 2012

O que é uma coisa bela?

Kate Upton: ela lhe parece com uma vaca?




Num post recente uma leitora quis saber: “Lola, tudo bem? Uma pergunta: gorda é palavra pejorativa? Obrigada”.
Não sei, anônima. Me diga você: quando você vê alguém chamando uma pessoa de gorda, isso geralmente é um insulto, um elogio, um termo “neutro”, uma descrição? Numa sociedade gordofóbica, eu diria que gordo, e principalmente gorda (já que a pressão para que mulheres estejam dentro do padrão é maior que pros homens), costumam ser pejorativos, sim. 
Pessoalmente, eu sou gorda e me descrevo como gorda, então se alguém me chama de gorda, pra mim não é nenhuma surpresa. Ainda assim é um pouco perturbador o que aconteceu comigo uns quatro ou cinco anos atrás. Eu estava num shopping em Joinville, saindo do cinema, de mãos dadas com o maridão, quando dois rapazes passam por mim. Um deles diz pra mim, bem baixinho, quase imperceptível, mas alto o suficiente pra eu ouvir: “Gorda”. 

Fiquei sem reação, porque não tinha nem certeza que o carinha realmente me chamou de gorda. Afinal, é insólito demais: por que um desconhecido vai me dirigir a palavra? E me dizer, no meio de um shopping, algo que é pejorativo? Depois refleti um pouco e concluí que essa era a principal fonte de diversão desses dois jovens marotos numa sexta-feira à noite: chamar mulheres de gordas. Bem baixinho, numa forma covarde de bullying, pra que a “gorda” não tenha nem chance de esboçar reação.
Sabe, eu sou ateia. Mas rezaria pra que esses mesmos rapazes tivessem a chance de cruzar comigo de novo e me repetir a gentileza. Porque eu não iria deixar barato, não. Seria o maior escândalo da história daquele shopping. Eu ia querer muito saber o que minha forma física tem a ver com eles.
O que me indignou nessa ocasião é que foi tão gratuito, tão ao vivo. Na internet, eu tô acostumada. Ouço isso todo dia e nem pisco. Então sabe o que o pessoal faz? Como os mascus sabem que “gorda” não me atinge, eles me chamam de jubarte, baleia, balofa, sei lá que mais. Que também não me atinge, até porque eu acho animais que são sinônimos de gorda lindos (elefante, hipopótamo, baleia etc). 
Mas é aquele negócio. Quem insulta ou tenta insultar outra pessoa está falando muito mais de si que da pessoa que ele insulta. Imagina só: eu sou gorda. Aí vem alguém e me chama de gorda, num tom como se quisesse ofender. Eu continuo aqui, gorda, lindona, feliz, igualzinha, sem engordar nem emagrecer um grama. Mas o cara que tentou me ofender está dizendo pra todo mundo que ouviu o “insulto” que considera gorda um insulto, que se acha no direito de julgar a aparência alheia, que não amadureceu muito da quarta série pra cá, que odeia gordas, que não tem nada melhor pra fazer numa sexta à noite. Não sei quanto a você, mas eu acho que ele sai pior na foto. E talvez isso se aplique a qualquer insulto.
Em 2010, a Grã Bretanha instituiu o Equalities Act, que torna ilegal insultar ou discriminar alguém com base em sua raça, gênero, idade, orientação sexual, ou deficiência. Agora querem incluir na lista ofensas baseadas na aparência. Não preciso nem dizer que, para algumas pessoas, isso é o fim da civilização como a conhecemos. O que elas vão fazer da vida se não puderem mais chamar um gay de viado, uma pessoa trans* de traveco, uma mulher de vagabunda, um negro de macaco, ou –- era só o que faltava! -– uma gorda debaleia? Onde esse mundo vai parar, meu deus?
Óbvio que o pessoal que tem essa necessidade de chamar uma mulher acima do peso de vaca balofa não vai se contentar apenas em mirar as mulheres acima do peso, certo? Dê uma olhada no que um site publicou esses dias (não vou dar nome de site que espalha ódio e incentiva a anorexia; é fácil encontrar pelo Google). 
Tradução: “Vc sabia que humanos são geneticamente 80% idênticos a vacas? Bem, deixe-me provar isso a você... / Adivinhe quem? Sim, é a adorável Kate Upton, confiantemente marchando numa passarela como se houvesse um buffet no final. Não há nada de errado em uma garota média como Kate ser confiante. Ela é bonita, pisa na passarela como se fosse dela, e eu a elogio pela coragem. Visões mais agradáveis de Kate com a mesma roupa estão aqui: / E eu ainda pergunto: Que diabos?! A moda virou isso? Bom, sabemos que não, então não vamos fingir que isso é moda. Ela parece pesada, vulgar, quase pornográfica -– e pesa pelo menos 15 quilos a mais que a vestimenta permite”.
Ahn, certo. Antes desse ataque, eu nunca tinha ouvido falar em Kate Upton. Descobri que é uma modelo americana de 20 anos que posou pra capa de uma revista esportiva. Kate não só está dentro do padrão de beleza, como é o padrão. É símbolo sexual e tem um corpo que a maior parte das mulheres não têm, nem nunca vai ter (pra começar, ela mede 1,78). E no entanto, quando ela se mexe, ela parece ter dobrinhas! 
Por causa de uma dobrinha, Kate é comparada a uma vaca. E, como sabemos, mulheres gordas são vulgares, quase pornográficas. Agora, voltando ao início do post –- no que esses insultos afetam Kate? Eles dizem mais sobre ela ou sobre a pessoa que desesperadamente quer ofendê-la?
E aí, leitora anônima: gorda é uma palavra pejorativa?



(Lola Aronovich do blog "Escreva, Lola, Escreva")


E pra finalizar, uma frase que eu gosto muito e que ilustra muito bem o texto:


"Podemos viajar por todo o mundo em busca do que é belo, mas se já não o trouxermos conosco, nunca o encontraremos."



quarta-feira, 18 de julho de 2012

Top 3 musical - Especial Ney Matogrosso


Ney Matogrosso e Banda Tono - Não consigo


Ney Matogrosso e Angela Ro-Ro - Amor, meu grande amor


Ney Matogrosso, Roberta Sá e Zé Renato - Se todos fossem iguais a você


Silêncio dos olhos




"Nalgum lugar em que eu nunca estive alegremente além de qualquer experiência,
teus olhos tem o seu silêncio:
no teu gesto mais frágil há coisas que me encerram,
ou que eu não ouso tocar porque estão demasiadamente perto.
teu mais ligeiro olhar facilmente me descerra
embora eu tenha me fechado como dedos, nalgum lugar
me abres sempre pétala por pétala
como a primavera abre
(tocando sutilmente, misteriosamente) a sua primeira rosa
ou se quiseres me ver fechado, eu e minha vida nos fecharemos belamente, de repente,
assim como o coração desta flor imagina a neve cuidadosamente descendo em toda parte
Nada que eu possa perceber nesse universo iguala
o poder de tua intensa fragilidade: cuja a textura compele-me com a cor de seus continentes
restituindo a morte e o sempre cada vez que respira
(não sei dizer o que há em ti que fecha e abre, só uma parte de mim compreende que a voz dos teus olhos é mais profunda que todas as rosas)
Ninguém, nem mesmo a chuva, tem mãos tão pequenas."

(Nalgum lugar – Poema de: E.E. Cummings, traduzido por Augusto Campo e musicado por Zeca Baleiro, também conhecido como meu poema preferido, e quadro de Gustav Klimt)


sábado, 7 de julho de 2012


"Tarde aprendi
bom mesmo
é dar a alma como lavada.
Não há razão
para conservar
este fiapo de noite velha.
Que significa isso?
Há uma fita
que vai sendo cortada
deixando uma sombra
no papel.
Discursos detonam.
Não sou eu que estou ali
de roupa escura
sorrindo ou fingindo
ouvir.
No entanto
também escrevi coisas assim,
para pessoas que nem sei mais
quem são,
de uma doçura
venenosa
de tão funda."

(Ana C.)

sexta-feira, 6 de julho de 2012




"De delicadeza me construo.
Trabalho umas rendas
Uma casa de seda para uns olhos duros
Pudesse livrar-me da maior espiral
Que me circunda e onde sem querer me reconstruo!
Livrar-me de todo olhar que quando espreita, sofre
O grande desconforto de ver além dos outros.
Tenho tido esse olhar.
E uma treva de dor
Perpetuamente.
Do êxodo dos pássaros, do mais triste dos cães,
De uns rios pequenos morrendo sobre um leito exausto.
Livrar-me de mim mesma.
E que para mim construam
Aquelas delicadezas, umas rendas, uma casa de seda
Para meus olhos duros."
Hilda Hilst