sábado, 30 de junho de 2012

Em um canto qualquer acomodei minha dança, os meus traços de chuva


"E o que é estar em paz
Pra ser minha e assim ser tua..."


Sob o céu de Saigon





"Ela era uma dessas moças, aos sábados, com uma bolsa pendurada no ombro, sobem ou descem a rua Augusta. Aos sábados quase sempre à tarde, pois pelos óculos muito escuros e o rosto um tanto amassado que a ausência total de maquiagem nem pensou em disfarçar, quem olhar para uma delas mais detidamente, e alguns até o fazem, pedindo telefone ou dizendo gracinhas sem graça, às vezes grossas, porque elas caminham devagar, olhando as coisas, não as pessoas, mas quem olhar com atenção perceberá que dormiu mal ou demais, bebeu na noite anterior, acabou de chorar ou qualquer coisa assim, sem muita importância. Costumam, elas também, usar jeans desbotados, sapatos de salto baixo, às vezes tênis gastos, camisetas ou alguma blusa de musselina, seda crepe, ou outro tecido assim fino, que um rápido olhar mais arguto perceberia de imediato não se tratar de uma pessoa prostituta ou empregada doméstica. Pois têm certa nobreza, essas moças, não se sabe se pela maneira altiva como fingem não ouvir as gracinhas que alguns dizem, se pelo jeito firme de segurar a alça da bolsa com seus dedos de unhas sem pintura, conscientes de que são fêmeas e estão na selva. Num súbito encontrão, que não seria impossível, menos aos sábados, é verdade, do que nas sextas-feiras ao meio-dia ou de tardezinha, se alguém arrebatasse a bolsa a uma dessas moças para depois rasgá-la num terreno baldio, ficaria decepcionado com o dinheiro escasso, o talão de cheques sem saldo, uma agenda de poucos compromissos, tickets de metrô, algum livro de poesia, esoterismo ou psicologia, uma foto de criança, raramente de homem, quem sabe um cartão de crédito vencido e entradas para teatro ou show, já usadas. Essas moças não olham para baixo nem para cima: com passo decidido, olham direto para a frente, como se visualizassem além do horizonte um ponto escondido para esses outros que passam quase sempre sem vê-las, para onde se dirigem com seus jeans gastos, suas bolsas velhas, suas peles de nenhum artifício. Dessa nitidez no passo, dessa atrevida falta de artifícios no rosto é que brota quem sabe aquela impressão de nobreza transmitida tão fortemente quando passam, mesmo aos que não as olham nem mexem com elas. Podem parar para folhear revistas estrangeiras em alguma banca, sem jamais comprar nada, deter-se para conferir os preços estampados nas portas dos restaurantes, olhar maçãs ou morangos, tocar rosas ou antúrios, mas geralmente apenas seguem em frente, subindo ou descendo a rua Augusta. Talvez sejam tantas e, se realmente o são, tão parecidas que, se alguém do alto de uma janela no Conjunto Nacional olhasse para baixo e as visse agora, poderia pensar mesmo que são uma só. Uma única moça: esta, com a bolsa velha pendurada no ombro, que depois de cruzar o topo da Avenida Paulista começa a descer a rua Augusta em direção aos Jardins no sábado à tarde."


(Caio Fernando Abreu)

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Liberdade sexual: um luxo?

A Câmara dos Deputados discutirá em audiência pública na quinta-feira, 28, a suspensão de dois dispositivos de uma resolução do Conselho Federal de Psicologia que orientam os profissionais da área a não usar a mídia para reforçar preconceitos contra os homossexuais nem propor tratamento para curá-los.

O projeto, do deputado João Campos (PSDB-GO), líder da bancada evangélica na casa, abre caminho para que psicólogos tratem o homossexualismo como um transtorno. O parlamentar argumenta que as orientações restringem o trabalho dos profissionais e o direito da pessoa de receber orientação.
"Entendo que a matéria não pode ser vista apenas sob a égide de uma única classe profissional, pois alcança a sociedade de uma forma geral. O tema requer um estudo e uma análise aprofundada, levando em consideração os aspectos científicos e também sociais que o envolvem", disse Campos. "Entendo que a matéria também deve ser submetida às pessoas que desejam buscar na psicologia ajuda em virtude de dúvidas quanto à orientação sexual", completou o parlamentar à Agência Câmara.
A proposta de Campos é derrubar dois dispositivos do conselho - o de que "os psicólogos não colaborarão com eventos e serviços que proponham tratamento e cura das homossexualidades" e o de que "os psicólogos não se pronunciarão nem participarão de pronunciamentos públicos nos meios de comunicação de massa, de modo a reforçar os preconceitos sociais existentes em relação aos homossexuais como portadores de qualquer desordem psíquica".
A sessão de debate será realizada às 9h30 pela Comissão de Seguridade Social e Família, da qual Campos é suplente.
(Fonte: http://www.estadao.com.br/noticias/vidae,camara-debate-na-quinta-proposta-que-abre-caminho-para-a-cura-gay,892289,0.htm)

Não costumo utilizar esse espaço para discussões e/ou desabafos, mas o conteúdo da notícia acima me deixou especialmente perplexa.
Como pretendemos nos afirmar como o tal "Brasil - um país de TODOS" quando um retrocesso dessa magnitude é formulado, e, mais gravemente ainda, discutido na Câmara?
O que deveria ser motivo de discussão, na verdade, é a homofobia, que alguns consideram inerente ao "macho", e não uma forma vazia e cruel de preconceito. Vazia e cruel porque tira do outro uma das maiores qualidades das pessoas, uma das coisas que nos define como humanos: o direito de amar livremente, apenas por uma dificuldade de lidar com o diferente.
O que deveria ser inerente às pessoas é o respeito ao próximo, e não uma capacidade irracional de julgar como errado tudo aquilo que difere.
Liberdade sexual, e mais do que isso, liberdade de ser quem se verdadeiramente é, não pode ser um luxo que alguns defendem. Deve ser direito. E só assim poderemos dizer que o Brasil é um país de todos.
Na França já não existe mais o que chamamos de Transtorno de Personalidade de Gênero, que é atribuído a transexuais. Lá não é mais doença: é característica da pessoa. E enquanto isso os nossos homossexuais seguem sofrendo os mais variados tipos de violência e preconceito, pelo simples fato de gostarem de pessoas do mesmo sexo.
Como futura profissional da área de saúde mental e mais do que isso, como cidadã de caráter, a indignação tomou conta de mim quando li essa notícia. Chego a me perguntar se existe algum resquício de humanidade em pessoas que defendem que uma escolha deve ser considerada doença, e que liberdade deve ser privada de alguns porque outros não sabem lidar com isso.
É preciso uma reflexão profunda e sincera sobre os nossos próprios valores. As nossas próprias verdades. Sobre tudo aquilo que interfere na nossa visão do outro. Só assim nos veremos livres de preconceitos e da necessidade de privar o outro de sua própria liberdade. Ser quem é, de maneira livre, é um direito supremo, e não uma decisão política pautada na opinião de quem vive carregado de preconceitos.
Por um país de todos, mas de verdade.

"Eu tô na fila do transplante de esperança."


terça-feira, 26 de junho de 2012


"Colada à tua boca a minha desordem. 
O meu vasto querer."




Hilda Hilst, ilustrada por cena do filme Dans Paris.

Terror de te amar







"Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo 

Mal de te amar neste lugar de imperfeição 
Onde tudo nos quebra e emudece 
Onde tudo nos mente e nos separa. 

Que nenhuma estrela queime o teu perfil 
Que nenhum deus se lembre do teu nome 
Que nem o vento passe onde tu passas. 

Para ti eu criarei um dia puro 
Livre como o vento e repetido 
Como o florir das ondas ordenadas."



Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen e quadro de Edward Hopper.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Desapego até dos meus esconderijos... aos berros


"Eu me entrego apenas quando souber
Que o que iremos passar vai ter valido uma canção
Meia hora a mais na cama na segunda-feira
Um dia chuvoso bem embaixo do edredom
Ao colo de quem me aceita assim
A tudo que puder antes que a cortina feche
Até de malas prontas, me arrisco a compor
De um jeito que ninguém sabe
Sem sonhar com os pés no chão
Entregue-se àquilo que te faz sentir."

Procura-me aqui


"Não me procures ali
Onde os vivos visitam
Os chamados mortos.
Procura-me
Dentro das grandes águas
Nas praças
Num fogo coração
Entre cavalos, cães,
Nos arrozais, no arroio
Ou junto aos pássaros
Ou espelhada
Num outro alguém,
Subindo um duro caminho

Pedra, semente, sal
Passos da vida. Procura-me ali.
Viva."



Poema de Hilda Hilst. Quadro de Clarice Gonçalves.

domingo, 24 de junho de 2012

quinta-feira, 21 de junho de 2012



"Verifico agora que a minha dedicação às Grandes Causas foi crescendo na proporção inversa da minha decepção com as Grandes Pessoas da minha vida. Tomei a amizade como uma versão adulta e vacinada do amor, o que significa que transferi para a casa dela a artilharia pesada do meu batalhão de afetos. Substituí o Príncipe Encantado pelo Amigo Maravilhoso, que eras tu. Podias ser meu pai, eras o meu discípulo. Nada nos poderia separar, porque estávamos naturalmente livres das armadilhas do desejo, da via sacra da posse e do sacrifício. Quanta candura. Uma vida inteira desperdiçada em candura – e nem sequer tive tempo para mudar o mundo."


Um pouco mais do mesmo é sempre bem vindo quando se repete aquilo que te toca: texto de Inês Pedrosa, retirado do livro Fazes-me Falta (belíssimo!) e quadro de outro grande poeta das imagens, Egon Schiele.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Top 3 musical do dia


Air on the G String - Bach



Rolling Stones - Paint It Black



Caetano Veloso - O Estrangeiro



"Pois que agora o terremoto serviria à sua histeria e agora que estava libertada podia até adiar para o futuro a decisão de não ver Ulisses: só que hoje queria vê-lo e, apesar de não tolerar o mudo desejo dele, sabia que na verdade era ela quem o provocava para tentar quebrar a paciência com que ele esperava; com a mesada que o pai mandava comprava vestidos caros sempre justos, era só isso que sabia fazer para atraí-lo e estava na hora de se vestir: olhou-se no espelho e só era bonita pelo fato de ser uma mulher: seu corpo era fino e forte, um dos motivos imaginários que faziam com que Ulisses a quisesse; escolheu um vestido de fazenda, apesar do calor, quase sem modelo, o modelo seria o seu próprio corpo mas enfeitar-se era um ritual que a tornava grave: a fazenda já não era um mero tecido, transformava-se em matéria de coisa e era esse estofo que com o seu corpo ela dava corpo – como podia um simples pano ganhar tanto movimento? Seus cabelos de manhã lavados e secos ao sol do pequeno terraço estavam de seda castanha mais antiga – bonita? Não, mulher: Lóri então pintou cuidadosamente os lábios e os olhos, o que ela fazia, segundo uma colega, muito mal feito, passou perfume na testa e no nascimento dos seios – a terra era perfumada com cheiro de mil folhas e flores esmagadas: Lóri se perfumava e essa era uma das suas imitações do mundo, ela que tanto procurava aprender a vida – com o perfume, de algum modo intensificava o que quer que ela era e por isso não podia usar perfumes que a contradiziam: perfumar-se era de uma sabedoria instintiva, vinda de milênios de mulheres aparentemente passivas aprendendo, e, como toda arte, exigia que ela tivesse um mínimo de conhecimento de si própria: usava um perfume levemente sufocante, gostoso como húmus, cujo nome não dizia a nenhuma de suas colegas-professoras: porque ele era seu, era ela, já que para Lóri perfumar-se era um ato secreto e quase religioso – usaria brincos? Hesitou, pois queria orelhas apenas delicadas e simples, alguma coisa modestamente nua, hesitou mais: riqueza ainda maior seria a de esconder com os cabelos as orelhas de corça e torna-las secretas, mas não resistiu: descobriu-as, esticando os cabelos para trás das orelhas incongruentes e pálidas: rainha egípcia? não, toda ornada como as mulheres bíblicas, e havia também algo em seus olhos pintados que dizia com melancolia: decifra-me, meu amor, ou serei obrigada a devorar, e agora pronta, vestida, o mais bonita quanto poderia chegar a sê-lo, vinha novamente a dúvida de ir ou não ao encontro com Ulisses – pronta, de braços, pendentes, pensativa, iria ou não ao encontro? Com Ulisses ela se comportava como uma virgem que não era mais, embora tivesse certeza de que também isso ele adivinhava, aquele sábio estranho que no entanto não parecia adivinhar que ela queria amor."

Um dos meus trechos preferidos do livro Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres, de Clarice Lispector. Ilustração da fantástica Tina Berning.

terça-feira, 19 de junho de 2012

Viva demais

"Todos irão sempre contra ti
porque tens pureza.

Porque o agitado de tuas mãos
é quase nostálgico.

Porque teus olhos
ficarão abertos
para quem os viu
uma única vez.

Todos irão sempre contra ti
porque hás de querer
um mundo novo e diferente.

Porque és estranho
e diferente para o nosso mundo.

És quase um louco
porque não dás atenção
à toda gente.

Dirão que és poeta.
Porque a poesia aparece nos teus gestos
como aparece fé na oração de um crente.

Amaste quase todas as mulheres.
Mas o amor agora é tão difícil.
Não existes para mim.
Mas agitado, febril,
quase doente, és vivo...

Vivo demais para viver conosco."



Texto da Hilda Hilst enviado por uma grande amiga, com o qual me identifiquei de imediato. E no quadro de Schiele, mais uma identificação.

Geração Caio Fernando Abreu


"Uma das poucas imagens da minha adolescência que consegui conservar é a da menina do outro lado da rua que nunca fechava a cortina. Durante quase um ano, essa menina, que devia ter a minha idade ou pouco mais (quando se é adolescente todas as meninas parecem mais velhas do que você), sentou-se diariamente em frente ao espelho de uma cômoda de madeira e penteou seus cabelos por longos 15 minutos. Ela acordava mais cedo do que eu, mas logo fiz do seu o meu horário de despertar. O motivo era prosaico: a menina se penteava com os seios à mostra.
Eu me encolhia atrás da janela e, depois de me masturbar uma ou duas vezes, me perguntava por que a menina, tão bonita e dona de tudo aquilo, acordava sempre cabisbaixa, com ar melancólico, alisando suas melenas como se fossem de outra pessoa. Em poucos meses, acabei desenvolvendo, quase como um segredo de mim mesmo, uma paixão calada pela vizinha desinibida. Achava que alguém tão triste poderia ser a garota diferente das outras com quem eu sonhava. Como se vê, naquela idade eu também já inventava amores e puxava minhas angústias.
Os anos passaram e, apesar de ter mudado de janela muitas vezes, continuo espreitando por trás de cortinas. E as meninas continuam tristes. Aliás, mais do que nunca. Com certa perplexidade percebi que minha amiga matinal não era caso raro. Como ela, agora, enquanto eu escrevo e você lê este texto, outras milhares de meninas perdem os olhos no reflexo de um espelho, procurando algo que perderam dentro de si, sem saber muito bem o quê. Talvez seus vizinhos tenham olhares menos perscrutadores que os meus e talvez elas tenham cortinas abaixadas, mas seguem nubladas, trovoando sob penteados e vestidos soltos.
Hoje enxergo a tristeza nas meninas o tempo todo. Saindo da academia, apressadas, batendo coxas bem torneadas envoltas por lycra; na praia, solitárias, sobrancelhas arqueadas, lendo livros e bebendo mate com limão; no cinema, mãos dadas com mais um, namorando por tédio; nas boates, emperiquitadas, fazendo carão, cabelos alisados e olhos pintados de preto; nos shoppings, carregando sacolas de grife, equilibrando saltos finos e narizes empinados; andando de bicicleta, administrando lordose sobre selins desconfortáveis; desligando telefones, cruéis, entre desaforos; apaixonando-se, apavoradas, entregues; tristes e lindas, e, quanto mais lindas, mais tristes, mais inexoravelmente tristes.
Quanto mais observo, menos me sinto capaz de compreender sua fragilidade arrebatadora, seu luto antecipado. O que passa por trás da expressão aflita que, sem aviso, ganha seu rosto? O que tanto pesa sobre as pintinhas dos seus ombros? Quais são as respostas para as perguntas que ainda não aprendi a fazer? Não sei e acho que morro sem saber, mas quando penso nisso me lembro de você falando de amor pela primeira vez, me abraçando com a força de uma multidão e, sem esconder o pavor, me perguntando, pequena, num muxoxo, como se estivesse presa num buraco: 
-E agora?"

Texto de João Paulo Cuenca, provando que leio a Revista TPM há uns bons anos e que não sou a única a enxergar a tristeza das nossas meninas.
E na imagem, um dos meus quadros preferidos de um dos meus pintores preferidos: Edward Hopper.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Quando Esparta encontra Atenas

"Entre ela e Eduardo o ar tinha gosto de sábado. E de súbito os dois eram raros, a raridade no ar. Eles se sentiam raros, não fazendo parte das mil pessoas que andavam pelas ruas. Os dois às vezes eram coniventes, tinham uma vida secreta porque ninguém os compreenderia. E mesmo porque os raros são perseguidos pelo povo que não tolera a insultante ofensa dos que se diferenciavam. Eles escondiam o amor deles para não ferir os olhos dos outros de inveja. Para não feri-los com uma centelha luminosa demais para olhos." 

Texto de Clarice Lispector (você pode ler completo aqui: http://www.brazzil.com/pages/shooct99.htm)
Imagem: o famoso quadro O Beijo, do genial Gustav Klimt.

Aprendendo na prática as sutilezas de um amor vivido (quase que) apenas por quem deve vivê-lo: os amantes.

Porque amor não precisa (e nem deve!) ser alardeado, apenas sentido. Sentido na pele, entre quatro paredes, no sorriso, no olhar, na mão que desliza pelo cabelo, no toque delicado do beijo, na gargalhada ao descobrir algo novo do outro, no colo quando houver compartilhamento de tristezas...No dia a dia, lado a lado, vivendo e amando como se só existisse nós dois no mundo.

Entregue-se àquilo que te faz sentir

"Os amigos. Entrariam por uma casa em chamas para nos salvarem. Mentem por nós à nossa própria mãe. Sabem de nós mais do que somos capaz de lhes dizer. Jurariam que à hora do crime estávamos a tomar chá com eles. Mesmo que a polícia nos encontrasse com as mãos cheias de sangue. 'São rosas, senhores. Andei com ela toda a tarde a cortar rosas, senhores. Sangue de espinhos, senhores.'


Eles exigem-nos coisas de nada. As nossas lágrimas. O nosso lenço de assoar. A pele dos nossos inimigos. As batatas fritas do nosso bife. A nossa melhor roupa, por uma noite. Exigem-nos tudo o que nos dão. É preciso regá-los regularmente: é nos ombros deles que cai toda a água dos nossos olhos. Eles espevitam-nos o sentido de humor quando menos nos apetece. E depois ficam conosco quando as luzes se apagam e toda a gente se foi embora. Só aos amigos é dado o espetáculo da nossa miséria."





Lembrei-me desse trecho do livro A Instrução dos Amantes, da fantástica Inês Pedrosa (recomendo esse e muitos outros da escritora) enquanto via fotos minhas com algumas amigas, em especial, as melhores amigas.
Freudiana que sou, assim como ele, não acredito em atos falhos ou coincidências da mente: acredito no nosso inconsciente se comunicando com nosso consciente para nos lembrar daquilo que não foi esquecido. E em meio a tantas flutuações emocionais, relembrar a importância e o significado da verdadeira amizade serve como o porto para um barco já fatigado de navegar nas ondas de um mar instável, no qual os outros amores também navegam de forma imprecisa, também em busca de um cais.
E enquanto esse cais não surge, é fundamental saber que pode-se lançar nossa âncora no porto das amizades, essa espécie de amor que nunca nos nega ancoradouro.

Quadro de Edgar Degas

domingo, 10 de junho de 2012

E Narciso acha feio tudo aquilo que não é espelho

"Nada mais cruel do que lutar com um inimigo implacável e inexorável. Contra a ação do tempo as mulheres lutam, tentando manter-se sempre jovens e belas. Frenéticas e enlouquecidas, consumindo compulsivamente toda sorte de produtos que prometam retardar o seu envelhecimento e manter sua beleza, essas mulheres
lutam contra si, perdendo-se no espelho à procura delas mesmas.
Se antes as roupas as aprisionava, agora se aprisionam no corpo – na justeza das próprias medidas."


Texto completo aqui: http://pepsic.bvsalud.org/pdf/malestar/v8n2/06.pdf
Imagem: Mais um quadro do talentosíssimo Zim Lin. 

sábado, 9 de junho de 2012

Potencial de ação

"O que de fato buscamos é captar o tempo todo o que se faz e o que se desfaz em nós, dar forma ao que vivenciamos em nossa subjetividade. Chega o momento, então, em que, a despeito da forte sensação de vertigem e desorientação que possamos experimentar, é preciso abandonar aquela forma que virou carcaça, não nos diz mais nada, e ir em busca de outra que pareça vital, que aumente nossa potência de agir."

Texto:  Rosane Preciosa, tiradas do incrível "Produção Estética".
Imagem: Quadro de Zim Lin.

Inaugurando um espaço para trocar textos e reflexões que não cabem apenas em 140 caracteres. Sejam bem vindos!