quinta-feira, 19 de julho de 2012

O que é uma coisa bela?

Kate Upton: ela lhe parece com uma vaca?




Num post recente uma leitora quis saber: “Lola, tudo bem? Uma pergunta: gorda é palavra pejorativa? Obrigada”.
Não sei, anônima. Me diga você: quando você vê alguém chamando uma pessoa de gorda, isso geralmente é um insulto, um elogio, um termo “neutro”, uma descrição? Numa sociedade gordofóbica, eu diria que gordo, e principalmente gorda (já que a pressão para que mulheres estejam dentro do padrão é maior que pros homens), costumam ser pejorativos, sim. 
Pessoalmente, eu sou gorda e me descrevo como gorda, então se alguém me chama de gorda, pra mim não é nenhuma surpresa. Ainda assim é um pouco perturbador o que aconteceu comigo uns quatro ou cinco anos atrás. Eu estava num shopping em Joinville, saindo do cinema, de mãos dadas com o maridão, quando dois rapazes passam por mim. Um deles diz pra mim, bem baixinho, quase imperceptível, mas alto o suficiente pra eu ouvir: “Gorda”. 

Fiquei sem reação, porque não tinha nem certeza que o carinha realmente me chamou de gorda. Afinal, é insólito demais: por que um desconhecido vai me dirigir a palavra? E me dizer, no meio de um shopping, algo que é pejorativo? Depois refleti um pouco e concluí que essa era a principal fonte de diversão desses dois jovens marotos numa sexta-feira à noite: chamar mulheres de gordas. Bem baixinho, numa forma covarde de bullying, pra que a “gorda” não tenha nem chance de esboçar reação.
Sabe, eu sou ateia. Mas rezaria pra que esses mesmos rapazes tivessem a chance de cruzar comigo de novo e me repetir a gentileza. Porque eu não iria deixar barato, não. Seria o maior escândalo da história daquele shopping. Eu ia querer muito saber o que minha forma física tem a ver com eles.
O que me indignou nessa ocasião é que foi tão gratuito, tão ao vivo. Na internet, eu tô acostumada. Ouço isso todo dia e nem pisco. Então sabe o que o pessoal faz? Como os mascus sabem que “gorda” não me atinge, eles me chamam de jubarte, baleia, balofa, sei lá que mais. Que também não me atinge, até porque eu acho animais que são sinônimos de gorda lindos (elefante, hipopótamo, baleia etc). 
Mas é aquele negócio. Quem insulta ou tenta insultar outra pessoa está falando muito mais de si que da pessoa que ele insulta. Imagina só: eu sou gorda. Aí vem alguém e me chama de gorda, num tom como se quisesse ofender. Eu continuo aqui, gorda, lindona, feliz, igualzinha, sem engordar nem emagrecer um grama. Mas o cara que tentou me ofender está dizendo pra todo mundo que ouviu o “insulto” que considera gorda um insulto, que se acha no direito de julgar a aparência alheia, que não amadureceu muito da quarta série pra cá, que odeia gordas, que não tem nada melhor pra fazer numa sexta à noite. Não sei quanto a você, mas eu acho que ele sai pior na foto. E talvez isso se aplique a qualquer insulto.
Em 2010, a Grã Bretanha instituiu o Equalities Act, que torna ilegal insultar ou discriminar alguém com base em sua raça, gênero, idade, orientação sexual, ou deficiência. Agora querem incluir na lista ofensas baseadas na aparência. Não preciso nem dizer que, para algumas pessoas, isso é o fim da civilização como a conhecemos. O que elas vão fazer da vida se não puderem mais chamar um gay de viado, uma pessoa trans* de traveco, uma mulher de vagabunda, um negro de macaco, ou –- era só o que faltava! -– uma gorda debaleia? Onde esse mundo vai parar, meu deus?
Óbvio que o pessoal que tem essa necessidade de chamar uma mulher acima do peso de vaca balofa não vai se contentar apenas em mirar as mulheres acima do peso, certo? Dê uma olhada no que um site publicou esses dias (não vou dar nome de site que espalha ódio e incentiva a anorexia; é fácil encontrar pelo Google). 
Tradução: “Vc sabia que humanos são geneticamente 80% idênticos a vacas? Bem, deixe-me provar isso a você... / Adivinhe quem? Sim, é a adorável Kate Upton, confiantemente marchando numa passarela como se houvesse um buffet no final. Não há nada de errado em uma garota média como Kate ser confiante. Ela é bonita, pisa na passarela como se fosse dela, e eu a elogio pela coragem. Visões mais agradáveis de Kate com a mesma roupa estão aqui: / E eu ainda pergunto: Que diabos?! A moda virou isso? Bom, sabemos que não, então não vamos fingir que isso é moda. Ela parece pesada, vulgar, quase pornográfica -– e pesa pelo menos 15 quilos a mais que a vestimenta permite”.
Ahn, certo. Antes desse ataque, eu nunca tinha ouvido falar em Kate Upton. Descobri que é uma modelo americana de 20 anos que posou pra capa de uma revista esportiva. Kate não só está dentro do padrão de beleza, como é o padrão. É símbolo sexual e tem um corpo que a maior parte das mulheres não têm, nem nunca vai ter (pra começar, ela mede 1,78). E no entanto, quando ela se mexe, ela parece ter dobrinhas! 
Por causa de uma dobrinha, Kate é comparada a uma vaca. E, como sabemos, mulheres gordas são vulgares, quase pornográficas. Agora, voltando ao início do post –- no que esses insultos afetam Kate? Eles dizem mais sobre ela ou sobre a pessoa que desesperadamente quer ofendê-la?
E aí, leitora anônima: gorda é uma palavra pejorativa?



(Lola Aronovich do blog "Escreva, Lola, Escreva")


E pra finalizar, uma frase que eu gosto muito e que ilustra muito bem o texto:


"Podemos viajar por todo o mundo em busca do que é belo, mas se já não o trouxermos conosco, nunca o encontraremos."



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