"Uma das poucas imagens da minha adolescência que consegui conservar é a da menina do outro lado da rua que nunca fechava a cortina. Durante quase um ano, essa menina, que devia ter a minha idade ou pouco mais (quando se é adolescente todas as meninas parecem mais velhas do que você), sentou-se diariamente em frente ao espelho de uma cômoda de madeira e penteou seus cabelos por longos 15 minutos. Ela acordava mais cedo do que eu, mas logo fiz do seu o meu horário de despertar. O motivo era prosaico: a menina se penteava com os seios à mostra.
Eu me encolhia atrás da janela e, depois de me masturbar uma ou duas vezes, me perguntava por que a menina, tão bonita e dona de tudo aquilo, acordava sempre cabisbaixa, com ar melancólico, alisando suas melenas como se fossem de outra pessoa. Em poucos meses, acabei desenvolvendo, quase como um segredo de mim mesmo, uma paixão calada pela vizinha desinibida. Achava que alguém tão triste poderia ser a garota diferente das outras com quem eu sonhava. Como se vê, naquela idade eu também já inventava amores e puxava minhas angústias.
Os anos passaram e, apesar de ter mudado de janela muitas vezes, continuo espreitando por trás de cortinas. E as meninas continuam tristes. Aliás, mais do que nunca. Com certa perplexidade percebi que minha amiga matinal não era caso raro. Como ela, agora, enquanto eu escrevo e você lê este texto, outras milhares de meninas perdem os olhos no reflexo de um espelho, procurando algo que perderam dentro de si, sem saber muito bem o quê. Talvez seus vizinhos tenham olhares menos perscrutadores que os meus e talvez elas tenham cortinas abaixadas, mas seguem nubladas, trovoando sob penteados e vestidos soltos.
Hoje enxergo a tristeza nas meninas o tempo todo. Saindo da academia, apressadas, batendo coxas bem torneadas envoltas por lycra; na praia, solitárias, sobrancelhas arqueadas, lendo livros e bebendo mate com limão; no cinema, mãos dadas com mais um, namorando por tédio; nas boates, emperiquitadas, fazendo carão, cabelos alisados e olhos pintados de preto; nos shoppings, carregando sacolas de grife, equilibrando saltos finos e narizes empinados; andando de bicicleta, administrando lordose sobre selins desconfortáveis; desligando telefones, cruéis, entre desaforos; apaixonando-se, apavoradas, entregues; tristes e lindas, e, quanto mais lindas, mais tristes, mais inexoravelmente tristes.
Quanto mais observo, menos me sinto capaz de compreender sua fragilidade arrebatadora, seu luto antecipado. O que passa por trás da expressão aflita que, sem aviso, ganha seu rosto? O que tanto pesa sobre as pintinhas dos seus ombros? Quais são as respostas para as perguntas que ainda não aprendi a fazer? Não sei e acho que morro sem saber, mas quando penso nisso me lembro de você falando de amor pela primeira vez, me abraçando com a força de uma multidão e, sem esconder o pavor, me perguntando, pequena, num muxoxo, como se estivesse presa num buraco:
Eu me encolhia atrás da janela e, depois de me masturbar uma ou duas vezes, me perguntava por que a menina, tão bonita e dona de tudo aquilo, acordava sempre cabisbaixa, com ar melancólico, alisando suas melenas como se fossem de outra pessoa. Em poucos meses, acabei desenvolvendo, quase como um segredo de mim mesmo, uma paixão calada pela vizinha desinibida. Achava que alguém tão triste poderia ser a garota diferente das outras com quem eu sonhava. Como se vê, naquela idade eu também já inventava amores e puxava minhas angústias.
Os anos passaram e, apesar de ter mudado de janela muitas vezes, continuo espreitando por trás de cortinas. E as meninas continuam tristes. Aliás, mais do que nunca. Com certa perplexidade percebi que minha amiga matinal não era caso raro. Como ela, agora, enquanto eu escrevo e você lê este texto, outras milhares de meninas perdem os olhos no reflexo de um espelho, procurando algo que perderam dentro de si, sem saber muito bem o quê. Talvez seus vizinhos tenham olhares menos perscrutadores que os meus e talvez elas tenham cortinas abaixadas, mas seguem nubladas, trovoando sob penteados e vestidos soltos.
Hoje enxergo a tristeza nas meninas o tempo todo. Saindo da academia, apressadas, batendo coxas bem torneadas envoltas por lycra; na praia, solitárias, sobrancelhas arqueadas, lendo livros e bebendo mate com limão; no cinema, mãos dadas com mais um, namorando por tédio; nas boates, emperiquitadas, fazendo carão, cabelos alisados e olhos pintados de preto; nos shoppings, carregando sacolas de grife, equilibrando saltos finos e narizes empinados; andando de bicicleta, administrando lordose sobre selins desconfortáveis; desligando telefones, cruéis, entre desaforos; apaixonando-se, apavoradas, entregues; tristes e lindas, e, quanto mais lindas, mais tristes, mais inexoravelmente tristes.
Quanto mais observo, menos me sinto capaz de compreender sua fragilidade arrebatadora, seu luto antecipado. O que passa por trás da expressão aflita que, sem aviso, ganha seu rosto? O que tanto pesa sobre as pintinhas dos seus ombros? Quais são as respostas para as perguntas que ainda não aprendi a fazer? Não sei e acho que morro sem saber, mas quando penso nisso me lembro de você falando de amor pela primeira vez, me abraçando com a força de uma multidão e, sem esconder o pavor, me perguntando, pequena, num muxoxo, como se estivesse presa num buraco:
-E agora?"
Texto de João Paulo Cuenca, provando que leio a Revista TPM há uns bons anos e que não sou a única a enxergar a tristeza das nossas meninas.
E na imagem, um dos meus quadros preferidos de um dos meus pintores preferidos: Edward Hopper.

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